INCERTEZAS IMAGINÁRIAS, entre a influência e a memória

essa pesquisa não tem o intuito de ser finalizada, sendo uma pesquisa continua sobre os movimentos anti-estéticos, e estimuladores criativos.

artes visuais, contorno cego

artista

Elissa Pomponio

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pré-exercício

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pós-exercício

fig. 2 visão de perto

Através de experimentos práticos com controle das variações de interferência, é proposto a análise da influência sonora para a criação de obras visuais em contorno cego. Como maneira a entender a absorção da ideia, utiliza-se um método em três frentes: desenho em primeiro contato ao estímulo sonoro; desenho da memória criada por esse estímulo sonoro; e desenho de detalhes dessa memória imagética.

Os áudios utilizados para essa experimentação foram captados por uma terceira pessoa, para que não houvesse possíveis interferências visuais provenientes do trajeto.

áudio 1 | moinho

00:00 / 01:10

áudio 2 | ponte

00:00 / 01:13

áudio 3 | árvores

00:00 / 01:44

árvore
memória

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árvore
primeiro contato

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árvore
memória

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árvore
detalhe da memória

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ponte
detalhe da memória

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ponte
primeiro contato

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ponte
memória

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moinho
primeiro contato

moinho
detalhe da memória

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fig.3 memória

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fig. 2 visão de perto

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fig. 1 visão de longe

A atenção pode ser um fardo da atualidade; como manter-se focado em apenas um objeto, assunto, ou pessoa, ao redor de todo excesso de informações sendo transmitidas com facilidade através das mãos? Consciente de que, essa fartura de informações pode interferir, a priori, na atenção, por consequência, na memória.

Contorno cego é uma técnica derivada do exercício desenho de contorno, introduzido por Kimon Nicolaides em 1941; consistia no ato do artista desenhar sobre uma folha de papel o que se vê, imaginando que a ponta do lápis toca o contorno do modelo. Durante esse

exercício não é permitido desviar o olhar do modelo para o papel, fazendo com que a sensibilidade do tato guie o contorno do desenho sobre a superfície.

A finalidade desse exercício é treinar o hemisfério direito do cérebro, o qual atua em informações mais lentas e complexas, é onde se inicia o processo de armazenamento da memorização da forma, da textura e dos tons. 

Como abordado em "Desenhando com o lado direito do cérebro", de Betty Edwards, o exercício de contorno auxilia no aperfeiçoamento da técnica de desenho realista, alimentando as habilidades básicas necessárias, segundo a autora, para desenhar: percepção das bordas; percepção dos espaços; percepção dos relacionamentos; percepção de luz e sombras; e percepção do todo.

Ambas habilidades destacadas por Betty Edwards são adquiridas, ou melhor, treinadas diante o ato de observação. "Aprender a desenhar é realmente uma questão de aprender a ver - ver corretamente -, o que implica muito mais do que ver apenas com os olhos.", já salientava Kimon Nicolaides em "The natural way to draw".

A estética do desenho de contorno cego se mantém em traçados tortuosos, e proporções inconsistentes, em contramão da intenção do uso do desenho de contorno como exercício. O desenho de contorno cego pode ser o breve registro da memória em seu "depósito" inicial.

É diante dessa via contrária pela busca ao belo que essa pesquisa trafega, entender os traços originários da ideia sendo expelida pela ponta da caneta, em meio a um nó, e desenrolando-se quanto mais atenção a esse objeto. Igualmente compreender como as interferências - em foco informações sonoras - podem intervir no ato da criação imagética, e em como a memória absorve essa informação sem interferências visuais.
 

A memória sensível da audição, em sintonia com a imaginação, quiçá, a memória sensível visual armazenada em um depósito mais profundo da memória.

É possível observar as marcas acentuadas pelo tempo entre as imagens que compõe as figuras de "memória" e de "primeiro contato"; o traçado rápido da primeira interferência e o traçado calmo da memória recém absorvida.

Para além dos traçados, em média, o tempo de duração de um desenho em contorno cego feito de memória é o dobro - ou mais - de um desenho

feito em primeiro contato. É possível que isso ocorra pelo mesmo motivo que faz com que os traçados da imagem de "primeiro contato" fiquem mais disformes: a pressa em capturar e transportar a informação recebida inicialmente. Por sua vez, ocasionada pouco tempo de observação a imagem gerada pela imaginação.

Inicialmente, essa pesquisa se iniciou com a performance "Influente", onde esse desenho estimulado pela sonoridade ia sendo produzindo em um rolo de papel que se movimenta constantemente. A movimentação desse papel fazia com que os desenhos, diferentemente do exercício abordado anteriormente, nunca terminassem, criando uma linha narrativa imagética. Essa performance dura cerca de 56 minutos, em simultaneidade de áudio e desenho, esses fatores colaboram para realçar a espécie de transe em camada profunda da memória. 

É importante destacar que, apesar das demonstrações do exercício experimental sonoro, as referências criativas elaboradas são oriundas de um filtro pessoal criativo, de certa maneira, camuflado diante o agrupamento de memórias vivenciadas por cada pessoa. Trabalhar entre as fronteiras do sentido, em busca de inspirações se apresenta um resultado com forte ligação ao primal, apostando no estado de quase transe proporcionado pelo isolamento.

espaço criativo utilizado durante os experimentos da pesquisa | fotogrametria 3D

Apesar de estar liberto das amarras técnicas, o desenho de contorno cego gera, em consequência de seu movimento anti-estético, uma frustação por diversas vezes não conseguir acompanhar a movimentação à risco da imagem gerada. A não visualização da superfície garante um caráter aleatório e variante aos desenhos, como já citado por David Hockney, "não é fácil fazer uma linha demasiado lentamente; por outro lado é necessário andar a uma certa velocidade para que a concentração seja melhor. É um ato muito cansativo. Ao fazer dois ou três desenhos de contorno, fica-se arrasado, pois têm de ser feitos de uma vez só. O que não acontece quando se faz um desenho esboçado; pode-se parar, pode-se corrigir. Com o desenho de não se pode pensar em fazer isso. Realmente, não se pode safar ou corrigir uma linha. É, por isso, muito excitante fazê-lo". 

Em consideração a esse relato pessoal de Hockney, é possível afirmar que, se observado e maturado com atenção, os desenhos resultantes do contorno cego podem produzir, em sua individualidade, obras visuais [quase] completas. A estimulação da técnica de contorno cego para liberação da memória pode ser considerada um facilitador criativo, transferindo sem exigências a ideia rapidamente para o papel, absorvendo-a com mais intensidade e menos dificuldade.

referências de estudo
EDWARDS, Betty - Desenhando com o lado direito do cérebro | 1º edição | 1979
EDWARDS, Betty - Desenhando com o lado direito do cérebro | 4º edição | 1999
NICOLAIDES, Kimon - The natural way to draw | edição ilustrada | 1990
DA SILVA ANTUNES PAIS, Teresa Maria - O desenho de contorno no processo de aprendizagem do desenho de observação | tese de doutorado | volume 1 | 2015 
AMARAL KUPSTAITIS, Bethielle - Da cegueira induzida à visibilidade encenada: uma poética pautada por transições da visualidade | tese de graduação | 2020
NUTT, Amy Ellis - O brilho das sombras | 2014
GOETHE - A doutrina das cores | edição padrão | 2015
HELLER, Eva - A psicologia das cores: como a cor afeta a emoção e a razão | edição padrão 2012
CAGE, John - A cor na Arte | edição padrão | 2012
_artigo - O processo de fabricação de memória | penta.UFRGS
_artigo - George Sperling | Wikipédia
_ artigo - Memória icônica | Wikipédia


fomento

 

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"(...) das habilidades básicas adicionais que são necessárias para o desenho criativo expressivo que conduzem à Arte com A maiúsculo. Destas, descobri duas e somente duas: desenhar de memória, e desenhar a partir da imaginação."

                                   Betty Edwards

áudio 1 em sua realidade: som da rua Saldanha Marinho, esquina com a rua Santa Maria em dia comum.

áudio 2 em sua realidade: som da rua Saldanha Marinho, esquina com a rua Dezoito de Setembro.

áudio 3 em sua realidade: som de um trajeto no bairro Boa Vista.

áudio 3 em sua realidade: som de um trajeto no bairro Boa Vista.

devaneio pessoal: é como se tivesse entrando por todas as vielas, em todas as casa, e ultrapassando toda superfície sólida que isola a privacidade das casas na cidade. Desenhar de olhos vendados, em estímulo sonoro, proporciona uma foco de atenção primal, inocente e altamente sensível as variações contidas na melodia.